16 de novembro, 2018

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Governo de tecnocratas e burocratas

por Delfim Netto

O que diz um candidato tem valor muito relativo e só há interesse em conhecer as ideias daquele que o assessora

 

Estamos vivendo um período altamente problemático para a nossa democracia. Ninguém está interessado no que pensam os candidatos à Presidência da República, mesmo quando se sabe que o País está envolvido em tenebrosos problemas. Parte deles deriva da completa perda de protagonismo do Executivo, resultado do comportamento contraditório da presidenta Dilma.

Depois de uma complicada reeleição em 2014 em que, juntamente com a promessa do “lago azul de águas tépidas” (o desenvolvimento mágico), se mentiu à vontade, se agrediu fortemente o adversário e terminou numa surpresa. Com a vitória, usou-se o programa do vencido (o desenvolvimento com sacrifício máximo). Essa esquizofrenia destruiu, instantaneamente, a confiança de dois terços dos seus eleitores. Ficou visível que o que diz um candidato no processo eleitoral tem valor muito relativo.

Talvez seja isso que tenha mudado o quadro. Ninguém, hoje, quer saber o que pensa o candidato, mas sim o que pensa o tecnocrata que o assessora! Estamos em pleno reino dos burocratas e tecnocratas não eleitos que controlam as instituições. Isso sugere um perigoso déficit democrático, diante da dramaticidade da queda do crescimento per capitano Brasil nas últimas décadas revelado no gráfico anexo.

É fato, não fake, que 2016 encerrou uma das piores décadas de crescimento do PIB per capita do último século. Tivemos um robusto crescimento com inflação relativamente moderada até a década dos 80 do século passado. A crise do petróleo (o Brasil importava 80% do seu consumo) produziu uma grave deterioração das condições internas.

O crescimento decenal per capita despencou de quase 7% no fim dos anos 70 para menos de 2% sob uma ameaça de hiperinflação até o sucesso extraordinário do Plano Real de 1995. É importante lembrar que o Brasil foi o primeiro país a resolver seu problema de balanço de pagamentos, em 1984, graças a uma grande recessão, e o último a renegociar a sua dívida, dez anos depois de um estúpido default, já no excelente governo Itamar Franco (1992-1994), sem o que, somado ao seu superávit primário de 5% do PIB, as chances do Plano Real seriam muito pequenas.

É fato, também, que o sucesso do Plano Real foi melhor para reeleger FHC do que para retornar o crescimento decenal. Este andou sempre às voltas de 1,2% ao ano, até um pequeno surto no governo Lula, ajudado pela boa administração da economia e um presente externo, a melhora das relações de troca. Lula soube aproveitá-los e distribuir (um misto de fato e de fake), que é a principal razão do “sebastianismo” que hoje o cerca.

Não é possível ignorar que o governo Lula mudou de caráter quando Dilma Rousseff, na Casa Civil, sabotou o desejo de seu chefe. Ele havia manifestado ao ministro Palocci (e há testemunha viva) que queria criar as condições para o estabelecimento do equilíbrio fiscal sólido, com uma relação dívida/PIB que possibilitasse uma ação fiscal enérgica se e quando a demanda privada esmorecesse.

“Esse programa é rudimentar”, disse ela, furiosa, à imprensa. E definiu a sua filosofia: “gasto é vida”, da qual, seja reconhecido, nunca se afastou a partir de 2012, quando dispôs livremente do poder para fazê-lo.

Não é sem motivo, portanto, que o decênio terminado em 2016, todo ele dominado pelo Partido dos Trabalhadores, registra um medíocre crescimento! O curioso é que um fakeproduzido pela “esquerda desvairada”, de que se queixava Darcy Ribeiro, se transformou em um quase “fato”. Atribuiu-se ao presidente Temer toda a desgraça de 2012 a 2016.

Temer começou muito bem. Foi desconstruído pela armadilha “JBSgate”, mas continuou a tentar as reformas imprescindíveis para a recuperação do protagonismo do Executivo, sem o qual a volta do crescimento é ilusão. Ainda agora, apesar de todas as resistências, tenta aprovar um conjunto de medidas que aliviarão o trabalho de seu sucessor, seja ele quem for. O deplorável é que o “incógnito” revela uma comprometedora falta de coragem…  Carta Capital.

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