26 de outubro, 2020

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Dói na alma

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

 

Em seu quarto personagem desde a eleição e a posse, há menos de dois anos, o presidente Jair Bolsonaro vai se metamorfoseando de acordo com as circunstâncias e conveniências políticas, mas de uma coisa ele não abre mão: dobrar a aposta a toda semana, a toda hora, na sua versão da “gripezinha”. São 152 mil mortos, mais de 5,1 milhões de contaminados e o discurso do presidente do Brasil é o mesmo, inacreditavelmente, irritantemente, negacionista.

Eu estava no velório do jornalista Alberto Coura, na quarta-feira, quando Bolsonaro insistiu que a pandemia é “superestimada”. Como assim? O que mais é preciso, no Brasil e no mundo, para o presidente admitir para sua gente que o coronavírus é grave, gravíssimo, uma tragédia na história da humanidade? Ele sabe exatamente o que se passa, mas não admite por estratégia, por cálculo político. Aliás, como fez e faz seu ídolo e mentor Donald Trump nos EUA.

 

Beto Coura, que foi da EBC e assessorou o ministro Celso de Mello na presidência do Supremo, era muito querido em Brasília e casado com a também jornalista Vanda Célia. Tinha 63 anos, passou 84 tenebrosos dias numa UTI e morreu em função do vírus. Como falar que a pandemia foi “superestimada”? Como ouvir isso sem sentir indignação, pelo Beto, pela Vanda, pelos 152 mil mortos e suas famílias? Dói na alma.

Desde o início – quando o mundo inteiro já estava em alerta, mas ele e Trump davam de ombros – Bolsonaro não está preocupado com vírus, contaminação, mortes. Só teme o efeito na sua popularidade, no seu governo e na sua reeleição. A frase dele, ainda em março, diz tudo: “Se afundar a economia, acaba meu governo, acaba qualquer governo. É uma luta pelo poder”. Não, presidente, não é uma luta pelo poder, é uma luta pela vida.

O atual grande risco é a politização da vacina, única boia salva-vidas contra esse maldito vírus, que chega numa segunda onda e apavora novamente a Europa. Não satisfeito em relevar a obrigatoriedade de tomar a vacina, Jair Bolsonaro não acha fundamental uma vacina para acabar a pandemia, mas que a “sua” vacina chegue antes da “dele” – a do governador João Doria. Seria só mesquinho, não fosse odioso.

Ao dar ouvidos aos terraplanistas do governo, prevendo 3,5 mil mortes, e a empresários oportunistas, que imaginavam “só” 6 mil, Bolsonaro agia pensando nele mesmo. Daí vieram: “gripezinha”, “histeria da mídia”, “não sou coveiro”, “todo mundo vai morrer”, “e daí?”. Desdenhou do isolamento, promoveu aglomerações (inclusive golpistas), descartou as máscaras, demitiu dois ministros da Saúde, deixou um general interino por meses, faz propaganda de um remédio sem comprovação contra o coronavírus e, por fim, ameaça a vacina.

Bolsonaro já foi anti “velha política” e Supremo, “Jairzinho Paz e Amor”, candidato de chapéu de vaqueiro e carregando criancinha. O quarto Bolsonaro é pragmático. De almoço em almoço, café em café, ele está de volta aos braços do Centrão e virou amigo desde criancinha de ministros do Supremo, enquanto deixa o Posto Ipiranga para lá e promove o desmanche de saúde, educação, cultura, política externa e meio ambiente.

Esse “novo” Bolsonaro faz política, a velhíssima política. E não é que dá certo? Vai aprovar no Senado um sujeito com currículo todo esburacado para 27 anos no Supremo, não esquenta a cabeça com queimadas e com as angústias de Paulo Guedes com privatizações e teto de gastos e vai se consolidando nas pesquisas e construindo a reeleição. Apesar de tudo…

Inimigos 1, 2 e 3. Eis os maiores inimigos de Luiz Fux na presidência do STFMarco AurélioGilmar Mendes e Lewandowski, os decanos n.º 1, 2 e 3. Nenhum deles é de brincadeira.

 

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

 

 

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