17 de junho, 2021

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Mario Mesquita: ‘com esse ambiente de incerteza, de susto, será difícil o investimento crescer’

Entrevista com Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

Pessimista em relação ao avanço das reformas econômicas, o economista-chefe do Itaú UnibancoMario Mesquita, diz também estar preocupado com as incertezas políticas, que ameaçam o crescimento do PIB. “Se persistir esse ambiente de solavancos na gestão de empresas importantes, vai ser difícil a gente manter uma trajetória de crescimento do investimento. A gente, por ora, espera um crescimento em torno de 2% em 2022, mas ele pressupõe uma economia com um grau menor de incerteza do que a gente tem agora.” Mesquita acrescenta que a interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás foi um “susto grande” para o investidor: “Quão relevante esse episódio vai se mostrar como divisor de águas, a história vai dizer. Mas os dados são incontroversos. Trincou um pouco o cristal.”

Apesar do ceticismo em relação aos próximos anos, Mesquita estava entre os menos pessimistas em 2020, apostando sempre em uma queda do PIB menos dramática que grande parte de seus concorrentes, que chegaram a prever retração entre 8% e 9%. Agora, para 2021, o economista projeta um crescimento de 4% no PIB. Pode parecer um número alto, mas, como ele estima que o carrego estatístico (quando a base de comparação – o resultado médio do PIB em 2020 – é baixa, mas o ponto de partida é elevado por conta da recuperação no último semestre do ano) seja de 3,6%, o número projetado é bastante modesto. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

O Itaú estava entre os menos pessimistas em 2020 nas projeções para o PIB, com queda sempre na casa dos 4%. Agora, também, projetando uma alta de 4%. A gravidade da pandemia não está se acentuando muito rapidamente para manter esse otimismo?

Nosso indicador de atividade, que ajudou bastante a acertarmos o PIB do ano passado, não sentiu ainda (alteração no ritmo da economia). Esse indicador foi calibrado para equivaler a cem no pré-pandemia e está rodando há vários meses em torno de 90. Não está crescendo, mas não está caindo. Ainda não captamos o efeito da nova rodada de lockdown. Esses lockdowns estão acontecendo praticamente no mesmo período do ano passado. Então, há um viés de baixa para o PIB do segundo trimestre. Olhando o ano,  estimamos que o carrego estatístico para o PIB de 2021 é de 3,6%. Como a gente prevê alta de 4%, isso significa que o crescimento é bem modesto. O risco negativo dos 4% é a pandemia. Se tivermos um impacto que seja metade do da primeira onda, e supondo que o lockdown dure dois meses, o PIB deve crescer 0,5% no primeiro trimestre e cair 0,4% no segundo trimestre. Se o lockdown for mais longo, até maio, aí cairia 0,7% no segundo. Mas vamos ter uma ideia mais clara do efeito do distanciamento social daqui a umas duas ou três semanas.

O sr. tem mostrado preocupação com a alta da inflação, que demandaria também um aumento da taxa de juros para 5% até o fim deste ano. Essa alta no juro não teria impacto negativo na atividade econômica, já fraca?

Nós projetávamos 5% (na taxa Selic) para o fim de 2022, mas antecipamos para este ano. Só para citar um número: no fim do ano passado, esperávamos que o IPCA tivesse uma inflação de 0,7% no primeiro trimestre, mas foi (será) o dobro disso. Esperamos que a inflação atinja um pico, no conceito interanual, de 7,3% em meados deste ano. A gente fala muito que a economia está operando com uma ociosidade grande. Isso é verdade, se você olhar para o mercado de trabalho. A situação é diferente no mercado de bens. Montadoras estão parando a produção por falta de insumo. Tem pressões inflacionárias no setor industrial. Tem uma inflação carregada e isso implica no risco de as expectativas desancorarem. Por isso, achamos que o Banco Central deve agir para reforçar essa ancoragem. Isso (a alta da taxa de juros) deve ter algum efeito sobre a atividade econômica. No entanto, em geral, esse efeito se materializa com dois ou três trimestres de defasagem. Portanto, vemos bater mais no fim deste ano ou no começo do próximo. Por outro lado, no curto prazo,  terá uma nova rodada de auxílio emergencial. Com isso, o consumo tem algum amparo. Auxílio e pandemia serão mais relevantes para determinar o PIB neste ano do que os efeitos da política monetária (alta ou redução dos juros). Política monetária é um tema mais para o ano que vem.

 

O governo quer que o auxílio emergencial custe entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões. Como o sr. avalia o impacto na situação fiscal do País?

Ainda esperamos que tenha uma redução da dívida neste ano, porque o déficit primário (resultado primário é a diferença entre os gastos e as receitas do governo, excluindo o pagamento dos juros da dívida pública) vai cair muito na comparação com o do ano passado. O PIB nominal vai crescer e também ajudar. O juro baixo tem um efeito de defasagem na dívida. Então, a dívida deve cair, ainda que não de forma expressiva.

 

O mercado financeiro está instável nos últimos dias, muito por conta da intervenção do governo na Petrobrás, do descontrole da pandemia e do atraso na vacinação. Ainda que a dívida caia e que a PEC do auxílio emergencial tenha sido aprovada no Senado, o País passa por uma crise de confiança? 

Esse é o ponto crítico. Desde o fim do ano passado, os economistas vêm ressaltando a importância de se conter a pandemia. Do ponto de vista humanitário, é óbvio, mas, além disso, também do ponto de vista econômico. Não tem recuperação consistente sem superar a pandemia. Vacina virou um instrumento poderoso de política econômica, porque ela permite a recuperação de setores importantes da atividade, como serviços, que emprega muita gente. Esse é o principal fator de risco. O risco fiscal deriva, no curto prazo, do risco da pandemia. Não teríamos uma nova rodada de auxílio emergencial se a pandemia tivesse seguido uma trajetória declinante.

Mas como está a confiança do investidor no País em geral, dado o cenário político?

Não há dúvida de que o episódio Petrobrás preocupou os investidores. Por exemplo, o fluxo de capital estrangeiro para a Bolsa vinha em recuperação, mas, depois desse episódio, começou a se reverter. Foi um susto grande. Uma vez que o investidor fica assustado, ele demora para se acalmar. Não é a primeira vez que a gente tem interferência do governo na Petrobrás. Governos de diferentes orientações ideológicas já fizeram isso, mas, quando acontece, e da forma como aconteceu, surpreendendo o mercado, tem uma reação natural dos investidores de ficarem mais retraídos, de quererem entender melhor qual é a direção da política econômica. Não dá para dizer que foi um episódio irrelevante. Foi relevante, sim. Quão relevante ele vai se mostrar como divisor de águas, a história vai dizer. Mas os dados são incontroversos. Trincou um pouco o cristal.

 

Ainda dá para acreditar que o ministro Paulo Guedes tem capacidade para fazer as reformas?

Este ano, nós passamos uma reforma importante que estava sendo discutida havia anos, da autonomia do Banco Central. A equipe econômica aparentemente evitou uma solução que implicasse em menos responsabilidade fiscal para a questão do auxílio emergencial (com a PEC aprovada no Senado nesta quinta-feira, 4)). Tem ainda a parte da Câmara. Se isso vai se traduzir  em um progresso mais acelerado na agenda de reformas, não sei. O tempo vai passando. Ano que vem tem eleição presidencial. A janela que temos para aprovar reformas vai ser exígua. Em meados do ano, talvez estejamos discutindo como viabilizar um aumento permanente do Bolsa Família,  e não reforma tributária. Realmente, tenho dúvidas. Não sou muito otimista quanto à trajetória de reformas olhando os próximos 18 meses. O calendário ficou apertado.

 

Muitos analistas têm dito que o País está sem rumo. Concorda?

Uma coisa que está acontecendo positivamente é que o investimento vem crescendo. Teve dois trimestres consecutivos de alta. Agora, um crescimento razoável não vai se manter em um ambiente de grande incerteza. Vamos resolver a incerteza fiscal? Depois, a reforma tributária? As minhas dúvidas para 2022 são essas. Se persistir esse ambiente de incerteza, de susto, solavancos na gestão de empresas importantes, vai ser difícil manter uma trajetória de crescimento do investimento. O próprio consumo pode acabar sendo afetado. Por ora, nós esperamos um crescimento em torno de 2% em 2022, mas ele pressupõe uma economia com um grau menor de incerteza do que a gente tem agora.

Teremos, então, de esperar a próxima eleição para alavancar o crescimento?

É, 2022 é eleição, mas sem pandemia, esperamos. Se eu estiver errado e tivermos um progresso grande na agenda de reformas neste ano, o ambiente melhora. É porque nós estamos esperando as reformas acelerarem já há tanto tempo no Brasil… É uma coisa que passa por vários governos. A frustração com a agenda de reformas não é de agora. A falta de progresso agora é frustrante, mas a frustração vem de muito tempo. Em algum momento, tínhamos de refletir se estamos contentes com o Brasil, com as instituições econômicas do jeito que são e que têm contribuído para esse crescimento muito ruim. Se o Brasil não quiser mudar, não quiser se tornar uma economia mais aberta, onde vários setores são mais expostos à competição, não quiser melhorar a formação de sua mão de obra, a qualidade da educação, vai ser difícil que comece a crescer mais.

Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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