02 de março, 2021

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Para elevar a lucratividade, ganha quem previne perdas

Um supermercado pode ter mil e poucos itens cadastrados para venda e mais de 1 milhão de mercadorias na loja. Gerir muito bem todo esse estoque é complexo, mas ainda a melhor solução para evitar perdas e desperdícios que desidratam a já minguada lucratividade do setor.

Gerenciar bem o estoque começa pelo recebimento da mercadoria e implica ir na jugular do problema: detectar e prevenir toda e qualquer perda, do salgadinho que o cliente abriu na loja até a ruptura de uma mercadoria, passando pelo produto cuja validade está muito próxima do vencimento.

O desafio é batalhar pela lucratividade reduzindo ao máximo as perdas, que consomem cerca de 1,82% (R$ 6,9 bilhões) do faturamento bruto do setor. “Depende somente de a gestão da empresa fazer esses resultados serem satisfatórios”, afirma Bruno Silva, diretor da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe).

“Não dá para eliminar todas as perdas. Mas é possível controlá-las e ampliar imediatamente o resultado, ‘direto na última linha’. Isso é particularmente importante quando a competição é exacerbada com a redução da massa real de pagamentos”, lembra Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar).

O problema é que os supermercados são campeões do ranking de Índices de Perdas, revela a Pesquisa Abrappe sobre Perdas no Varejo Brasileiro – Resultados 2020, em parceria com a consultoria FY. Supermercados Convencionais e os de Vizinhança lideraram o varejo com perdas acima de 2,20% em 2019 – muito superior à média de 1,36% do setor.

 

Tipos de perdas e metas de ação

Por isso é preciso ficar muito atento a dois tipos de perdas: 62% delas são as chamadas identificadas, que decorrem de erros de manuseio, manipulação e produtos avariados ou vencidos – somente os perecíveis são responsáveis por cerca de 50% do total perdido. Já as perdas não identificadas (os demais 38%) são furtos internos e externos e fraudes de funcionários e fornecedores (desvio de produtos) e de clientes (troca de etiquetas ou consumo na loja).

“Há muito registro errado de venda no checkout, como passar quatro sucos como sendo de um sabor só, erros de acerto de inventário (contagem errada de estoque) e de cadastro de produtos, quando uma caixa de 6 unidades é anotada como sendo de 12”, lembra Bruno Silva.

Bruno Silva, da Abrappe

Segundo ele, a melhora na gestão inicia pelo envolvimento dos colaboradores. No quesito treinamentos, o setor tem se mexido. Segundo a Abras, em 2019, 85% das empresas já treinavam seu pessoal contra perdas, ante 73% em 2017. No sentido inverso, as ações de inteligência e investigação social puderam ser reduzidas no mesmo período, de 40% para 29,5%, e os canais de denúncias também caíram, de 35,4% para 27,5%.

Mas também é preciso estabelecer metas de perdas, executar e controlar os planos de ações e realizar auditorias. “Para montar um plano de trabalho, precisamos conhecer profundamente as perdas. Uma das práticas utilizadas é o mapeamento de avarias, que registra a mercadoria antes do descarte, identifica qual é sua origem, a ocorrência e o motivo que levou o produto a ser avariado. Com esses dados podemos ter um diagnóstico mais preciso para analisar e priorizar ações para redução das perdas”, diz Silva.

O número de empresas que já adotaram uma área dedicada à prevenção de perdas só cresce. Em 2016, 60% dos supermercados diziam ter um setor dedicado a ela. Em 2019, esse número subiu para 71%. Grande parte delas está sujeita diretamente à presidência ou à diretoria geral.

A área aproveita muito profissional de segurança. “Pode ser útil, mas é importante que transite muito bem nas demais áreas da empresa e que tenha ainda uma qualificação mais profunda no segmento de gerenciamento de informações”, pondera o presidente do Ibevar.

 

Ruptura e reabastecimento

Robson Munhoz, da Neogrid

Uma das perdas mais importantes é pela ruptura. Segundo Robson Munhoz, vice-presidente da Neogrid, em dezembro a taxa de ruptura em supermercados atingiu 12,1%, muito acima da média histórica de 8%. “Deixar de atender o consumidor, que não encontra o produto na loja, é uma perda oculta e feroz”, adverte. Segundo ele, esse índice hoje é altíssimo e, pior, representaria, a cada ponto percentual, deixar na mesa 2% de lucro. “Se a margem do varejo já é apertada, a ruptura traz mais problemas ainda”, comenta.

Isso sem contar que, em outra pesquisa, a Neogrid constatou que 40% dos consumidores deixam de efetuar a compra se não encontram na gôndola o produto que queriam (19% deles não compram nada e 21% vão para outra loja). “A onda de aumentos de preços obrigou o pequeno varejista a negociar alternativas com distribuidores e indústria. Só que essa negociação causa lentidão no abastecimento”, alega Munhoz.

Para acelerar a reposição, uma solução é usar inteligência artificial (algoritmos) que alerta em tempo real uma possível ruptura, por exemplo. “Quando você coloca tecnologia para acompanhar os processos, é possível diminuir dois pontos percentuais no índice de perdas, e isso é repassado 100% para a lucratividade”, lembra Cláudia Biselli Fonseca, diretora da empresa de soluções para o varejo JUI PDV.

A informação é ferramenta primordial no varejo. Com ela, é possível detectar que dado produto ficou mais tempo do que o padrão habitual sem vender.

Mesmo assim, os erros de inventário respondem por 12% das perdas mais comuns dos supermercados. “Tudo tem um custo. Quando fazer? Sempre! É bom lembrar que existem muitas ferramentas potentes de dimensionamento de estoque. O que falta é aplicar esse conhecimento técnico”, diz.

 

Plataformas Integradas

Cláudia Biselli Fonseca, da JUI PDV

Cláudia Biselli Fonseca, da JUI PDV

 

 

“Cada vez mais a inteligência artificial ajuda a definir a demanda, os estoques e o fluxo de mercadorias e a reduzir as perdas de produtos in natura. Isso é fundamental, porque o que gera a maioria das perdas são as compras inadequadas à demanda”, lembra Felisoni.

Um das soluções é integrar todos os processos da loja, entre eles as auditorias e inventários. “Em uma só plataforma, as divergências aparecem imediatamente e provocam ações para resolver tudo de forma rápida. O benefício dessa interligação é o aumento da produtividade e, principalmente, reduzir os indicadores de perdas”, diz a diretora.

A plataforma estuda os processos relacionados à loja, acompanhando a mercadoria desde o seu recebimento, passando pela análise de desempenho de cada setor, para saber qual está quebrando menos e qual repõe com lentidão. A data de validade do produto é uma das informações mais relevantes. A ferramenta vai acompanhando a mercadoria até quando ela passa no caixa e emite alertas sobre a proximidade da validade.

O objetivo é melhorar o que for possível. “O gestor só consegue administrar o que ele pode avaliar, medir e classificar. No caso das perdas, os fatos geradores das perdas costumam ser roubos, furtos, perdas operacionais, fraudes”, afirma Felisoni.

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